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Histórias do pós-Carnaval

Luis Fernando Verissimo

A explicação do Heitor foi que o Carnaval mais cedo tinha desregulado o seu relógio biológico. A mulher do Heitor já se habituara às suas desculpas (ele uma vez atribuíra a demora em voltar para casa depois do Carnaval a uma tempestade magnética no Sol), mas aquela era nova.

- Relógio biológico, Heitor?

- É. Nós todos temos um relógio biológico dentro de nós. Relógio só, não. Calendário biológico. Bússola biológica. Regulados pelas fases da Lua, pelas datas universais e pelas oscilações do eixo terrestre. Você não sabia?

- Heitor...

- É um mecanismo muito delicado, que a ciência ainda não entendeu bem. Algumas pessoas, como eu, são mais sensíveis às suas variações. O Carnaval no começo de fevereiro me desorientou por completo. Esqueci tudo, inclusive o endereço de casa. Eu não sabia mais o que era Norte e o que era Sul. Quando dei por mim estava perto da fronteira com a Bolívia. Tive de voltar para casa de carona.

- Mas você não tinha esquecido o endereço?

- A amnésia vai diminuindo à medida que se volta mais para perto do meridiano de Greenwich.

- E tudo isto que eu encontrei no seu bolso, Heitor?

- O quê?

- Pedaços de serpentina, um pacote de camisinhas e um guardanapo de papel com o nome Gisele escrito com batom e um número de telefone.

- Não sei.

- Como não sabe?

- Não sei. É tudo um branco.

- Quer dizer que a sua desorientação foi total.

- É.

- Só porque o Carnaval foi mais cedo.

- É. Não sei... Eu... Mas espera um pouquinho! Este ano não é bissexto?

- É.

- Então está tudo explicado!


Estabeleceu-se a discussão. Aquela moça que aparecia na foto do jornal desfilando na avenida só de tapa-sexo era ou não era a dona Ritinha da farmácia? As mulheres não quiseram acreditar.

- Claro que não é ela. Ela não tem esses... essa... tudo isso.

Alguns homens hesitaram.

- Sei não. Vai ver ela tem e a gente é que não tinha notado.

O Toninho especulou, sob vaias:

- É que ninguém ainda tinha visto ela sem os óculos...

Mas quem acabou com a conversa foi o Marçal.

- É ela.

A curiosidade foi geral.

- Como é que você sabe, Marçal?

- Pela tatuagem na base da espinha.

Depois disso, a conversa foi outra. As mulheres mantendo que aquela era apenas outra história do Marçal, que um dia garantira que tivera um caso com a Vera Fisher e sustentava que as grandes mulheres preferem os homens pequenos, os homens pedindo detalhes ao Marçal sobre a tatuagem da dona Ritinha. E o Marçal, com um certo enfado, quase polindo as unhas:

- Eu reconheceria aquele escorpiãozinho em qualquer lugar.

OUTROS TEMPOS

(Da série "Poesia numa hora dessas?!")

Pierrot romântico não tem mais
Colombina ingênua não tem mais
Arlequim sem vergonha tem muitos
Mas todos extra-oficiais


Domingo, 10 de fevereiro de 2008.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.